O lado escuro

SunriseEmbora minha família não seja católica fervorosa, eu fui criada dentro de uma linha moral cristã. Fazer o bem, seguir as leis de Deus, evitar o mal. A medida que fui crescendo e questionando, me distanciei desta linha cristã e passei a me interessar por outras fontes. Budismo, espiritismo, umbanda, xintoísmo, hinduísmo, candomblé, já xeretei em todos os templos, espaços e terreiros. Costumo dizer que não posso ouvir um tambor que já me empolgo. Mas o fato é que aquela velha linha moral da minha infância sempre se aplicava. E como não, se todas as religiões buscam trazer à tona o nosso melhor?

Mesmo em religiões menos maniqueístas, como o budismo por exemplo, que entende todas as coisas como partes de um todo inseparável, ainda assim, há o desejo de ser bom. Claro que não é esta a proposta do budismo “seja boa, minha filha, senão o bicho pega”. A proposta é silenciar a mente e observar e, assim, ser. Mas, quando aplicamos o nosso racionalismo implacável e a necessidade de ação e resultados que guiam nossas vidas práticas ao budismo, nos tornamos budistas de resultados: pessoas que buscam a iluminação, que correm atrás do silêncio, que se ocupam e se preocupam em mudar pra melhor. E isso é ruim? Não sei, mas acho que não é bem assim que as coisas funcionam.

Há algum tempo, por vários motivos diferentes e independentes entre si, mergulhei num estado de decepção, raiva, medo, ansiedade, falta de fé e pessimismo. Não sei nem dizer há quanto tempo, porque as coisas não foram assim tão claras. De início, lutei contra estes sentimentos. Aleguei que eu não tinha motivos pra me sentir assim. Que minha situação estava melhor que a de muita gente. Que eu não deveria me sentir daquela forma. Tudo isso, verdade verdadeira. Mas de que adianta a verdade contra sentimentos que estavam ocupando cada vez mais espaço na minha mente e no meu espirito? De qualquer forma, eu estava decidida a não sucumbir à minha escuridão e resisti, neguei, rejeitei esses sentimentos negativos o quanto pude. Olhei para o outro lado, varri pra debaixo do tapete. Escondi de mim mesma.

Até que não pude mais esconder nada. Já havia uma montanha do tamanho do Everest debaixo do tapete. A escuridão transbordava em crises de angústia desesperadoras e, depois de muito tentar resolver sozinha, porque, né, não basta negar os próprios sentimentos negativos, a gente ainda tem que achar que é a Mulher Maravilha e vai resolver tudo sozinha, enfim, busquei ajuda profissional. Uma psicoterapeuta maravilhosa.

Se eu pensava que ela ia me acolher com uma xícara de chá e me acalmar e me ajudar a manter os sentimentos ruins bem longe da minha virtuosa pessoa, eu não poderia estar mais enganada. Nas primeiras sessões, acho que ela tateava, procurava reconhecer o terreno, descobrir o que me angustiava. Quando ela achou um dos assuntos que me angustiava e me enchia de raiva (e que eu nem percebia que me afetava tanto assim), ela bateu sem dó. Enfiou o dedo no corte, espremeu pra retirar o pus, jogou álcool, raspou pedaços de pele morta, mais pus, mais álcool, mas cadê a porra desse tal methiolate que não arde? Eu gritava, uivava e chorava de dor. Passava dias meio Walking Dead, me arrastando pelos cantos, rosnando minha raiva, chorando minha decepção, soluçando de medo, numa espécie de inferno pessoal. Até a próxima sessão, em que ela achava mais um sentimento ruim que eu tentei esconder e batia e cutucava e reabria expondo uma dor que parecia não acabar nunca.

Às vezes, ela me dá um break. Uma sessão mais levinha, falando de coisas prazerosas que eu poderia fazer, pequenos desafios para fortalecer minha confiança e independência e coisas do tipo. Pausa para respirar antes da próxima sessão de dor.

Eu confio na minha terapeuta e por isso, apesar da dor, prossegui no tratamento. Percebi que o termo em inglês para psicoterapeuta é muito mais correto do que em português: psycotherapist. É só uma questão de separar corretamente: psyco-the-rapist. Eu me sentia mal, muito mal, triste, raivosa, furiosa, revoltada, decepcionada, apavorada, pessimista. Ela tinha me empurrado na direção de tudo o que evitei sentir. Ela me empurrou em direção a minha escuridão. E eu mergulhei. E por que? Porque só assim eu vou conseguir me libertar e prosseguir. Negar a escuridão da minha alma não vai torna-la menos escura. Olhar claramente para a escuridão, reconhecê-la e aceita-la, vão me permitir sair. E a prova de que este era o caminho certo é que, apesar da tristeza, raiva e dor, não tive mais crises de angústia.

Percebi isso hoje. Pela primeira vez em muito tempo consegui sentir esperança e fé novamente, e isto para mim é um sinal definitivo de que estou sarando. Os outros sentimentos ruins já vinham diminuindo há algum tempo, embora presentes. Claro que eles estão presentes. Sou humana, sentir raiva e medo fazem parte e sempre farão. Mas sinto que a minha escuridão não está mais tão escura, tão dominante, agora que a reconheço e sei onde ela está. E hoje, finalmente fiquei feliz por ter reencontrado minha velha amiga fé e fiquei com vontade de falar da escuridão. Porque a escuridão nos faz querer a luz e, só é possível perceber isso depois que a gente mergulha no nosso lado escuro e sai do outro lado.

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