Mãe, você é superprotetora.

Hoje ouvi esta frase, endereçada a mim. De certa forma, fiquei feliz porque acho que estou fazendo a coisa certa.

Veja bem. Minha filha tem 11 anos e quer facebook, instagram, youtube e todas essas coisas maravilhosas que pelo jeito fazem a vida ter sentido e que na minha opinião não são coisa de criança. Às vezes acho que não são nem de adulto. Ou será que é bom para ela o constante mimimi que abunda no facebook? As fotos de gente morrendo? As reclamações raivosas? As ofensas gratuitas? Isso lá é ambiente pra criança, minha gente? I don´t think so. Instagram, nem pensar. Acho meio esquisita essa mania de tirar foto de tudo. Vou jantar. Foto do prato. Vou dormir. Foto de pijaminha. Acordei. Foto sem maquiagem. Vou tomar café da manhã. Foto do café. Entrei no carro. Selfie. Fico torcendo pra pessoa não ir ao banheiro, pelamordedeussocorro. Youtube…. é complicado. Ela ama ver videoclips. Ela ama vídeos engraçadinhos. Como proibir? Mas eu tenho medo porque sei o que tem no Youtube. Tem tudo. Dois cliques e você está vendo as cenas cortadas e erros de gravações de Garganta Profunda 1, 2 e 3.social-media-803650_1280

Nos últimos dias teve celeuma na escola dela. Alguns pais desaprovaram a escolha de um livro adotado pela escola, uma versão em HQ de Oliver Twist. Esta versão contém alguns palavrões, tipo fdp e alguns pais acharam isso demais. Claro que eu também não gosto de minha filha ouvindo palavreado chulo. Mas os fdps estavam inseridos na história, não foram gratuitos. E acho que as crianças ouvem coisa muito pior na rua, voltando da escola mesmo. Houve reunião na escola. A escola explicou que a leitura seria contextualizada, comentada e observada pelos professores, inclusive o de história, que aproveitaria para explicar a realidade de uma criança órfã na época, enfim. Aparentemente a coisa foi resolvida. Até que alguns pais apareceram na folha de sp, reclamando do livro, dos palavrões, questionando se os filhos “têm que”  ler A Culpa é das Estrelas (oi?????), e por que não ler Monteiro Lobato (ah, essa é fácil: eles já leram Monteiro Lobato, há uns 2 anos kkkkk!). Eita stress. Eita exposição desnecessária. Eita lá lá.

Logo no início, quando o nhenhenhe começou, fui averiguar. Bom, ela já estava quase terminando de ler, porque livro lá em casa é assim: não fica muito tempo sem ser lido. Ela disse que sim, tem palavrão. Perguntei se ela achou o livro incômodo, ruim de ler, triste, pesado, sei lá. Ela disse que o livro é triste pois todo mundo maltrata o menino. Todo mundo é muito mau. E o menino não fez nada pra ninguém. No mais, ela gostou da leitura e observou coisas muito interessantes sobre a arte e as cores dos quadrinhos. Perguntei sobre o palavrão, se ela sabia o que era fdp. Ela disse que não, então expliquei primeiramente, o que era o p e que puta era a forma feia de falar prostituta, e que prostituta é uma pessoa que faz sexo por dinheiro. Então, fdp é algo muito ofensivo, porque ofende a mãe da pessoa. Entendeu? Entendi. Nossa, e precisa falar assim da mãe do menino, que é órfão tadinho? Credo, que gente má. Pronto, foi essa a conversa. Algum trauma? Confusão? Risco da criança decidir chamar todo mundo de fdp a partir de hoje? Não né.keyboard-283232_1280

E é por isso que eu não me considero super protetora. Sou protetora sim. Se a criança some num parque e ninguém sabe dela, fico apavorada mesmo. Normal, né? Mas não acho que um livro seja capaz de desestabilizá-la. Acredito na capacidade de compreeensão dela. Acredito no senso crítico dela. E prefiro aproveitar as cenas desconfortáveis nos filmes e livros para conversar com ela e explicar as coisas.

Mas, youtube, facebook, instagram, e quetais….. vejo tanta criança com conta nessas ferramentas, e penso que elas ficam tão  expostas. O que vai para a internet dificilmente é retirado. E se uma criança, com 10 anos, postar uma coisa hoje e se arrepender aos 15, idade em que tudo é mico, como ela vai fazer pra deletar um conteúdo que já foi pro youtube e já foi replicado? E se, na criancice delas, elas falarem algo de que se arrependem? Que jeito mais duro (e público) de aprender que a palavra falada é como a flecha lançada. E se, nessas milhares de fotos compartilhadas com o mundo elas passam, sem perceber, informações importantes e que não deveriam ser tão escancaradas como: nome e endereço da escola em que ela estuda, horários, quem busca e quem leva na escola, quem cuida delas, nome dos melhores amigos, dos professores, nome dos pais. Você daria essa informação sobre seu filho indiscriminadamente a qualquer um? As fotos que ele tira no celular e publica no facebook fazem isso.

Depois de alguma negociação, deixei minha filha fazer um blog. Ela curtiu por um tempo, mas agora, ela quer postar vídeos. Estou pensando num jeito seguro dela fazer isso, mas…. estou muito desconfortável com essa idéia. Tive com ela uma longa conversa hoje. Sobre o valor da privacidade, sobre o vazio existencial das redes sociais, do quanto esse vazio consome de nós e do quanto ele vicia, sobre a eternidade dos dados na rede, sobre arrependimento, sobre… tudo. Além da preocupação com a segurança dela, me preocupa que tão cedo ela se preocupe em ter seguidores, curtidas, e outras formas de aprovação digital. Queria muito, muito mesmo, que ela tivesse mais tempo para sedimentar a idéia de que a única aprovação que importa é a DELA MESMA.

Mas é difícil argumentar com o “todo mundo tem”. ” Ah mãe, todo mundo tem youtube/facebook/instagram/etc”. Sorry, filha. Você é um ET. Um dia você vai entender que eu só estou protegendo sua privacidade até que você tenha maturidade o bastante para decidir o quanto quer expor na rede. Nesse dia, juro que vou respeitar suas decisões. Mas hoje, aos 11 anos, você vai ter que confiar em mim. Por favor.

Enquanto isso, todo mundo preocupado com um “fdp” num livro.

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