Porque eu não sou patriota

Este post não tem nada a ver com a atual situação do Brasil, com nossos lamentáveis governantes, com nossa desacreditada classe política, com nossas fracas instituições. Mesmo que o Brasil fosse outro país, nosso país dos sonhos, mais parecido com a Suécia do que com o Haiti, ainda assim, eu não seria patriota. É complicado explicar, mas vou tentar.

O fato de eu não ser patriota não quer dizer que eu não ame o Brasil. Porque eu amo. O fato de eu não ser patriota não significa que eu não acredite no Brasil. Porque eu acredito, mesmo estando quase impossível. Eu não sou patriota simplesmente porque não sou brasileira antes de ser humana.

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Eu não vejo por que devo amar este país de forma diferente de outras pessoas que nasceram em outras coordenadas. Ou porque devo me importar menos com outros países, que não são “meus”. Se todos os países são parte do mesmo planeta e estamos todos ligados uns aos outros, compartilhando nossa condição humana, respirando o mesmo ar e bebendo da mesma água, porque o Brasil deveria importar mais para mim do que o Chile, por exemplo?

O patriotismo me parece fazer cada vez menos sentido num mundo globalizado. O patriotismo divide, separa, aparta. O patriotismo ergue muros para separar o que é seu do que é nosso. O patriotismo fecha fronteiras. E, fechando fronteiras, acaba condenando a morte pessoas que só querem fugir de uma guerra. Mas e daí, não é mesmo? A guerra não é no meu país. Essas pessoas não têm a mesma nacionalidade que eu. Isso que acontece no país delas é problema delas, elas que fiquem e se virem, sei lá, tanto faz. Até que a gente vê a foto do menininho sírio morto na costa da Turquia e pensa que aquilo não faz sentido nenhum, que aquilo é errado demais, que uma vida é muito mais sagrada do que uma fronteira, que alguma compaixão teria caído bem. e que talvez, talvez, seja hora de sermos menos patriotas e mais humanos.

ÿÿ

Vivo em São Paulo, uma grande metrópole que exerce seu poder de atração sobre todo o país. Eu acho que essa mistura de gente, de culturas, de idéias, de etnias, é a grande riqueza de São Paulo. Pena que muitos não enxerguem isso, ocupados que estão em ser paulistas e querer São Paulo para os paulistas, seja lá o que isso signifique. Algumas pessoas olham desconfiadas para os imigrantes haitianos. Estes são pessoas que querem construir uma vida aqui, assim como fizeram meus avós há 70 anos. São pessoas que chegam aqui, escapando de sabe-se lá que perrengues e dificuldades e encontram uma cidade intimidante e quase nenhuma infraestrutura de apoio. Como meus avós, E como os seus também, provavelmente.

Miséria é miséria em qualquer canto. Riquezas são diferenças.

E eu vou sonhando, imaginando um mundo a la Lennon,

Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too

Imagine all the people
Living life in peace

You may say, I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope someday you’ll join us
And the world will be as one.

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